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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Visita do dia 19 de Janeiro de 2014.

Para total apreciação este relatório soará melhor se for lido enquanto escuta esta canção: 


Abro minha correspondência e vejo que enfim chegou o que eu aguardava. Mais um caso para ser solucionado. Me pedem para efetuar o registro de tudo o que aconteceu. Apesar de saber que tudo isso acabará por me levar a uma jornada incerta, o gosto doce do final de semana ainda persiste em minha boca e não posso fugir de tamanha verdade. Ainda me lembro como se fosse ontem. 
Era uma tarde nublada de Janeiro, dia 19, para ser mais exato. Pequenas gotículas se esparramam e escorrem pelos vidros do IC-DF. Um longo e vazio corredor espera e sabe que algo está para acontecer. Não tarda muito e chega o primeiro Doutor Palhaço, senta e espera os demais. Cada qual a seu tempo, ao ritmo das gotas de chuva que insistem em se espatifar nas janelas.
Ao se encontrarem, dão-se as mãos e proferem uma oração pelo trabalho que os espera. Mal sabem que aquele dia esconde grandes surpresas. Mais um longo corredor que pouco antes estava vazio e agora encontra-se cheio de narizes vermelhos, pés coloridos e uma súbita agitação no fundo do estômago. E ao final deste corredor, outro corredor, como que num labirinto cheio de emoções incertas e fantasiosas que se misturam e se perdem nos olhos de cada palhaço. E as gotas continuam seu salpicar, agora no teto, uma a uma marcando o tempo que falta para o grande encontro prestes a acontecer. 
A porta do elevador se abre, um a um entramos na gélida caixa metálica. Juquinha, Vagalume, Siri, Venâncio, Smith, Fofuxa, Nana, Risoleta, Jujuba, Sensa e eu, o Fiote.

Nos dividimos para cumprirmos a nossa tarefa da maneira mais eficiente. Cada qual em seu devido lugar, como engrenagens movendo uma máquina andarilha que passo a passo deixa seu rastro sem muito se preocupar em não ser vista.
Chegamos à nossa primeira paciente. Dona Iracema ao notar nossa presença logo se despede de dois de seus nove filhos. Sim, nove é o numero de sua extensa prole, um fato que teimou em se repetir ao longa daquela tarde chuvosa. Enquanto conversávamos com Dona Iracema somos abordados pelo segurança local que nos solicita que deixemos o recinto devido a ordens superiores. O espanto é geral. Seria alguém que temia que descobríssemos algum segredo há muito escondido? Um chiclete grudado em baixo de uma maca? Um pão-de-queijo guardado a sete chaves? Levanta-se o mistério, porém já chegamos longe demais para recuar. Doutora Sensa furtivamente se retira e utiliza seus contatos para contornarmos a situação. Ao que tudo indica seus amigos são muito eficientes e o segurança é chamado e retorna nos pedindo mil desculpas. Nota mental: Não contrariar Doutora Sensa. Seguimos então ao próximo.
Sr. Alcir por sua vez nos confidencia ter apenas oito filhos e que mesmo com tantos descendentes confiara uma importante tarefa a seu genro: ir ao banco e retirar toda fortuna que lhe pertence. Seu genro, porém falhou e seu Alcir se viu obrigado a recorrer a antigos contatos que rapidamente colocam tudo em seu devido lugar. O dinheiro foi devidamente encaminhado. Quanto ao seu genro, não sabemos o que aconteceu ao pobre rapaz. 
Sr. Gutemberg após ser pressionado nos revela sua verdadeira identidade: Leandro, ladrão de amores, temido por muitos e adorado por muitas. Com sua lábia impecável e retórica sedutora convence Doutora Nana a se casar com um de seus filhos. Tudo acertado, apenas a espera do dote.
No total foram 7 os interrogados na UTI Cirúrgica. Os que foram à UTI Pediátrica relatam um fato curioso. Estavam todos dormindo, todos os 10 pacientes. Ou pelo menos foi isso que nos disseram. Ao sairmos da UTI, noto muitas risadas e desconfio serem para nós. O mistério se aprofunda e uma forte coceira não deixa minha orelha sossegada. Seria uma pulga? Era.

Na UCO encontramos 6 pacientes e dentre diversas conversas algo nos chama atenção. Sr. João nos diz que também possui muitos filhos, 10 para ser exato e não demora em também arranjar um casamento de um de seus filhos com a Doutora Risoleta. As peças começam a se encaixar, mas ainda falta muito para que tudo isso faça sentido de fato.


Recebemos notícias que dentre outros 44 pacientes visitados neste dia havia um Senhor chamado Valdir que aguardava um implante de CDI. A princípio ele não queria dizer, mas acabou por confessar que se tratava de "silicone duplo inflável". Mais um a assumir uma dupla personalidade nesta trama mais enrolada do que fone de ouvido no fundo do bolso. Havia também o Sr. João da Cruz que tentou utilizar de sua lábia para que não nos lembrássemos de que ele na verdade era o Hulk da UTI. Por que tanto mistério, tantas vidas duplas, tantas pontas duplas?
Talvez a resposta estivesse com um casal que durante toda a tarde ficou sentado no corredor a namorar. Ao interrogar alguns anônimos que passavam pelo local descobrimos que recentemente haviam decretado uma nova lei. Uma lei que seria o grude a dar liga a tantas histórias misteriosas. Sr. Wilson e Dona Cleuza estavam lá ao final do corredor e mesmo temendo estar atrapalhando o namoro ousamos interrogá-los e somos informados que a partir daquele dia só era permitido transitar pelos corredores em pares. Era isso. Minha cabeça rodou e aos sons dos pingos de chuva na janela me recordei como em flashes dos corredores vazios, das propostas de casamento e das personalidades duplas. Ao que tudo indica todos os 67 pacientes queriam apenas poder caminhar pelos corredores sem contrariar a nova lei do parzinho.
Caso encerrado, voltamos pelos corredores que nos trouxeram. Desfizemos nossa máscara. Nos despedimos sem comentar o que havia de fato ocorrido.
A fina chuva havia passado e um pequeno sol se espreitava entre as nuvens.
Entrei no meu carro, liguei o toca-fitas sabendo que muito em breve mais uma correspondência surgiria com uma nova missão.

Caso encerrado.